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Como funcionava o 14 Bis


No auge da corrida pelos ares, na Paris do início do século 20, centenas de pessoas lotaram o Campo de Bagatelle para testemunhar mais uma tentativa de vôo de cientistas malucos em suas máquinas maravilhosas. O aventureiro da vez, no entanto, era o já conhecido aeronauta Alberto Santos-Dumont, brasileiro de Cabangu, Minas Gerais, que já havia inventado o dirigível e dado a volta na Torre Eifel com um balão de ar quente.

Sob os olhares incrédulos da multidão, Santos-Dumont pilotava o 14 Bis, um biplano feito de bambu, seda japonesa e juntas de alumínio. Voou por 7 segundos a 3 metros de altitude, e foi ovacionado por ter sido o primeiro a criar uma aeronave mais pesada que o ar que saía do chão por seus próprios meios.

Santos Dumont ganhou o título de inventor do avião, mas seu feito levantou uma polêmica que persiste até hoje: quem inventou o aviao – ele ou os irmãos Wright? Afinal, dois anos antes os americanos haviam voado em uma aeronave com asas, semelhante ao que hoje ­é conhecido como avião. No dia 23 de outubro de 2006, Dia da Aviação, o Brasil comemorou o centenário do 14 Bis (veja o vídeo acima, cedido pelo site Centenário do Vôo do 14 Bis).


Santos-Dumont

Alberto Santos-Dumont era o sexto filho de mãe portuguesa e pai francês. Para mostrar que a ascendência tinha o mesmo peso, costumava assinar seu sobrenome com o sinal de igual no lugar do hifen: Santos=Dumont. O pai, Henrique, era engenheiro formado em Paris e, apesar de ter dedicado boa parte de sua vida à construção de estrada de ferro, fez fortuna com o cultivo do café. Iniciou com uma fazenda na antiga Cabal (hoje Rio das Flores), no Rio de Janeiro, e acabou tendo 60 fazendas na região de Ribeirão Preto (SP) que, juntas, produziam 4 milhões de sacas de café por ano e foram responsáveis pelo desenvolvimento da região e pelo título de Rei do Café dado a Henrique. A fazenda Arindeuva, onde viviam Henrique e sua família, tornou-se a mais moderna da América do Sul: 5 milhões de pés de café, 96 km de ferrovias e sete locomotivas.



A foto clássica de Santos-Dumont

Santos-Dumont cresceu entre cafezais e pequenas invenções que poderiam possibilitar o homem pairar ou se locomover no ar. Para matar o tempo, passava horas observando os pássaros e construindo pipas exóticas e aeronaves movidas a elástico. Tinha talento para a mecânica e, desde cedo, foi incentivado pelo pai. Quando sofreu um acidente que obrigou-o a ir a Paris para tratamento, em 1890, Henrique levou Santos-Dumont com ele. Ali, o jovem Alberto conheceu o automóvel (foi ele quem, em 1898, trouxe para o Brasil primeiro automóvel movido a petróleo) e os balões a gás. Dois anos depois, mudou-se para a cidade-luz. Já emancipado e com dinheiro suficiente deixado pelo pai para sustentá-lo pelo resto da vida, Dumont dedicou-se aos estudos da matemática, da física, da eletricidade e da mecânica. Tudo para conquistar o ar.

Após seu primeiro vôo de balão, em 1898, Dumont contou: “Durante toda a viagem acompanhei as manobras do piloto; compreendia perfeitamente a razão de tudo quanto ele fazia. Pareceu-me que nasci mesmo para a aeronáutica. Tudo se me apresentava muito simples e muito fácil; não senti vertigem, nem medo”. Dumont iniciava ali sua caminhada rumo à invenção do dirigível, dos balões de gás de pequeno porte, do 14 Bis, do hangar, do Demoiselle e do relógio de pulso.


Figura extravagante

Santos-Dumont era baixinho e franzino. Tinha 1,60m e pesava 50 kg. Seu peso fazia dele um ótimo piloto de testes para seus inventos aeronáuticos. Ele era leve, muito leve. Para disfarçar a altura e alongar a silhueta, usava sapatos com salto, colarinho alto e uma capa de seda que fizeram moda na Paris da época. Tinha hábitos extravagantes: praticava balonismo pela manhã e almoçava “nas alturas” com seu mecânico chefe (mesa e cadeiras com mais de 2 metros de altura no restaurante Maxim’s). Não dispensava o champagne nem nos almoços nem nos balões, para onde também levava um cesto com ovos cozidos, rosbife e frango frio, sorvete derretido, frutas, bolos, café e licor.

Em sua casa, recebia os endinheirados da época para jantares regados a champagne. Em um deles, encomendou ao amigo Louis Cartier um relógio totalmente diferente dos que existiam na época: o acessório deveria permitir ao inventor consultar as horas facilmente durante os vôos. Nasceu ali o relógio de pulso, em contraposição aos tradicionais de bolso.

Em 10 anos, Santos-Dumont construiu, testou e voou em 20 balões e aeroplanos. Seu último vôo como piloto foi no Demoiselle (projeto nº 22), o primeiro ultraleve de que se tem notícia. A partir daí, o pai da aviação sai da cena dos grandes acontecimentos e sente-se esquecido. Depois de ser confundido pela polícia francesa com um espião alemão, em plena Primeira Guerra, ele entra em depressão e começa a desenvolver esclerose múltipla. Após várias visitas ao Brasil, volta ao país definitivamente em 1926 e aqui vive até enforcar-se com duas gravatas no banheiro do quarto de hotel em que residia, em São Paulo, em 23 de julho de 1932, aos 59 anos de idade.


O 14 Bis

Em 1903, o mundo já havia testemunhado o primeiro vôo dos irmãos Orville e Wilbur Wright com uma aeronave mais pesada que o ar. Só que a máquina dos dois mecânicos norte-americanos era incapaz de alçar vôo sem a ajuda de algum dispositivo – no caso, uma catapulta ou uma pista feita de troncos de madeira. Os irmãos realizaram mais três vôos com o Flyer, e tomaram para si o título de inventores do avião.

Contudo, faltava ser inventada uma máquina voadora com autonomia de pouso e decolagem. Um dos aeronautas mais ativos do começo do século passado, Santos-Dumont concebeu o 14 Bis para concorrer a dois prêmios oferecidos pelas autoridades da aviação francesa a quem conseguisse voar 25 m e 100 m com uma máquina mais pesada que o ar que decolasse por seus próprios meios.

Dumont já havia desenvolvido uma série de dirigíveis que exibiam agilidade, velocidade, resistência e facilidade de controles sem paralelo, e iniciou as pesquisas para o que seria o precursor do avião moderno. Primeiro, adotou a configuração das asas com células Hargrave, uma estrutura em caixa parecida com uma pipa que era usada em planadores e que permitia elevação com peso mínimo. Depois, escolheu um motor muito leve e com grande potência: um Antoinette de 24 HP feito por Léon Levavasseur, que era usado em barcos velozes de corrida. E, em seguida, escolheu o material de que seriam feitas as células e as juntas: seda japonesa, bambu e alumínio. O brasileiro juntou tudo isso e construiu um biplano do tipo canard, com asas na parte traseira e nariz na parte frontal.

A aeronave era um segredo mantido a sete chaves em Neuilly, onde estava o galpão do inventor e sua equipe de construtores e artesãos. Configuradas em diedro, as asas ficavam situadas na parte traseira e continham três células Hargrave. O motor e o propulsor foram posicionados entre as asas, logo atrás do compartimento do piloto. Uma célula móvel no nariz atuava por cabos originalmente fabricados para relógios de igreja, e permitia a pilotagem e os ajustes de altitude. A estrutura do biplano era feita de bambu, seda japonesa e alumínio – materiais leves e resistentes. Dumont já havia usado a seda japonesa em substituição à chinesa na construção de seu primeiro balão a gás de pequeno porte, o Brasil 1.

O biplano de Dumont percorreu a meia milha que separava Neuilly, onde foi construído, do Campo de Bagatelle, onde seria testado, na barriga do seu último dirigível, o nº 14, e puxado por um burro. Devido a essa configuraçao, o avião ficou conhecido como 14 Bis. Nos testes, as forças impostas pela aeronave quase rasgaram o dirigível ao meio. Dumont e sua equipe voltaram para Neuilly e reprojetaram o 14 Bis, ajustando o balanço e o posicionamento do peso do avião, com a ajuda de um cabo de aço conectado a duas varas, uma mais alta que a outra.

Em agosto de 1906, o 14 Bis foi transportado novamente para Bagatelle para os primeiros testes depois dos ajustes. Nesses testes, descobriu-se que o motor Antoinette de 24 HP não tinha potência suficiente para atingir velocidades de vôo. Dumont substituiu-o por um de 50 hp que atingia 1.500 rpm. Em setembro, depois de testes de velocidade bem-sucedidos, Dumont anunciou que tentaria os prêmios aeronáuticos.

Na data marcada, Dumont conseguiu um salto de apenas 13 metros e um motor no chão, não se qualificando para o prêmio, mas não desistiu. Após reparos, no dia 23 de outubro de 1906, o 14 bis finalmente voou quase 70 metros a uma altitude de 3 metros, diante dos olhares estupefatos de mais de 1.000 espectadores e da Comissão Oficial do Aeroclube da França, entidade autorizada a homologar qualquer atividade aeronáutica. Dumont conquistou o prêmio de 3.000 francos por um vôo de 25 metros. Ali mesmo, Dumont anunciou que tentaria o prêmio de 100 metros em 12 de novembro daquele mesmo ano. 


planta do 14 bis

Para fazer com que o 14 Bis percorresse uma distância maior, Dumont adicionou ailerons na célula do meio de cada asa. Os ailerons controlavam a estabilidade da aeronave e eram acionados por cabos anexados ao ombro das vestes do piloto. Com uma inclinação dos ombros, Dumont conseguia controlar a rotação dos ailerons e estabilizar o 14 Bis. No dia 12 de novembro, após três tentativas, Dumont e seu 14 Bis voaram 220 metros, a uma altitude de 4 metros. O prêmio de 100 metros também foi conquistado, assim como seu lugar na história da aviação.


Especificações técnicas do 14 Bis

Motor: Levasseur Antoinette, de 50 hp
Velocidade: 36,84 km/h
Peso: 160 kg
Comprimento: 10 m
Altura: 4,81
Envergadura: 12 m
Materiais: seda japonesa, bambu e alumínio
Nacela: vime


A polêmica com os irmãos Wright

O reconhecimento de Santos-Dumont como inventor do avião é polêmico. Muitos afirmam que quem realizou o primeiro vôo com uma aeronave mais pesada que o ar foram os irmãos Wright, dois anos antes de Santos-Dumont e seu 14 Bis. Enquanto muitos dizem que Dumont criou o primeiro avião aplicável. E é em torno da aplicabilidade que gira a polêmica.

O Wright Flyer, a aeronave de asas fixas desenvolvida pelos irmãos Wright, voou mais alto, mais rápido, mais longe, por mais tempo e com maior controle que o 14 Bis, mas só conseguia decolar com a ajuda de dispositivos de lançamento (uma catapulta ou uma pista de troncos de madeira). Já o 14 Bis podia levantar vôo por si só, a partir de uma superfície plana e achatada.

Foi justamente essa característica de independência na decolagem e no pouso que levou a Federação Aeronáutica Internacional a considerar o 14 Bis como o primeiro avião aplicável.

Mas tanto os Wright quanto Santos-Dumont têm sua parcela de contribuição na invenção do avião. Pelo menos é o que diz o livro “Conexão Wright – Santos-Dumont – A verdadeira história da invenção do avião”, em que o autor, Salvador Nogueira, mostra que o avião é uma invenção conjunta de vários cientistas.


As invenções de Santos-Dumont

Alberto Santos-Dumont era um mecânico talentoso. Ainda criança, inventou aviõezinhos com hélices acionadas por elásticos. Já adulto, trouxe para o Brasil o primeiro automóvel movido a petróleo. Mas foi em Paris onde sua criatividade e talento foram reconhecidos. Santos-Dumont inventou:

Balão a gás de pequeno porte que revolucionou a construção de aeróstatos. Foi batizado de Brasil, em homenagem à terra Natal de Dumont

Dirigível: ao colocar um motor movido a petróleo num balão a gás, Dumont inventou o primeiro dirigível. O modelo nº 9 foi o primeiro a dar a volta da torre Eifel.

O avião: o 14 Bis foi a primeira aeronave mais pesada que o ar a levantar vôo por seus próprios meios

O precursor do ultraleve: o Demoiselle 20, um avião menor, mais rápido e com maior possibilidade controle que o 14 Bis, foi o último invento aeronáutico de Dumont. E o primeiro ultraleve da história. Tinha 115 kg, envergadura de 5,50m e comprimento de de 5,55m.

O relógio de pulso: Dumont pediu ao amigo Cartier que transformasse o relógio de bolso em relógio de pulso, colocando alças no lugar da corrente, de modo que ele pudesse controlar facilmente o tempo que passava no ar.

Hangar com portas de correr: em 1900, para fechar o galpão onde montava suas invenções, Dumont colocou portas que corriam sobre rolamentos. O primeiro hangar do mundo tinha 11 metros de altura, 7 metros de largura e 30 metros de extensão.

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fonte: howstufworks

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