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“A Infraero precisa de choque de gestão”


Professor de transporte aéreo da Coppe (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Elton Fernandes afirma estar perplexo com as improvisações do governo nos aeroportos.

Com o modelo escolhido para os três primeiros aeroportos licitados, a gestora dos aeroportos, hoje superavitária, deve passar a ter deficit a partir do ano que vem, diz ele.

Fernandes diz ainda que o governo não conseguirá um administrador internacional que transfira tecnologia para a Infraero e defende um choque de gestão na estatal.

Folha – O governo ainda não definiu qual modelo será adotado para Galeão (Rio) e Confins (Belo Horizonte). Qual seria a melhor solução?


Elton Fernandes – O melhor modelo seria ter uma boa gestão da Infraero. Naturalmente que o Galeão precisa de obras, porque boa parte dele foi feita há muitos anos e há muito para ser modernizado. Isso tudo é gestão.

Mesmo que o governo conceda os dois aeroportos, se não melhorar a gestão da Infraero, será um desastre, porque o transporte não se dá somente entre Galeão, Confins, Guarulhos, Congonhas e Brasília. Há os outros todos.

Por que a administração da Infraero não funciona?


A Infraero tem uma história de gestão de aeroportos muito longa, tem pessoal qualificado, mas, nessa área de gestão comercial, o que a gente tem visto é que não conseguiu andar, não conseguiu se modernizar e principalmente fazer planejamento.

O modelo adotado pelo governo prejudica a Infraero?


Foram prometidas outorgas bastante elevadas, são R$ 24,5 bilhões, mais uns R$ 10 bilhões em investimentos. A Infraero é responsável pela metade disso tudo (49%). Possivelmente esses três aeroportos concedidos (Congonhas, Guarulhos e Brasília), nos anos iniciais, não vão oferecer dividendo nenhum. Não sei como ficará a situação financeira da Infraero.

O próprio governo já admitiu que errou no primeiro leilão dos aeroportos, tanto que está buscando alternativas para Galeão e Confins. O senhor gostou do primeiro modelo?


Não é questão de gostar. O governo recorreu a isso por não conseguir fazer outra coisa. A presidente Dilma disse, quando era candidata, que iria abrir o capital da Infraero e nem tentou.

O que você percebe é o seguinte: as decisões são tomadas de forma atribulada, não têm por trás um estudo de impacto, de resultados. Por exemplo, quando o governo, depois de fazer a outorga, diz que não pode fazer a mesma coisa no Galeão porque senão a Infraero vai ficar negativa. Não saber disso antes é muita falta de planejamento. Qualquer pessoa que fizesse as contas ia ver que a Infraero não ia mais ter dividendo nenhum e vai ter dificuldade, porque o superavit dela hoje é em torno de R$ 300 milhões, que é o superavit de Guarulhos.

Se você tirou isso dela, já está com problemas financeiros. Então, por que não estudaram antes?

E por que o senhor acha que isso ocorreu?


Tudo tem sido assim nas decisões no transporte aéreo, são sempre tomadas de maneira atribulada.

O senhor participou como consultor de um dos consórcios vencedores do leilão [Guarulhos]. Como o senhor avalia o processo de venda?


Foi tudo aos trancos e barrancos, não teve planejamento nenhum. De vez em quando eles contratam um estudo de seis meses, contrataram aquele estudo do BNDES/Mackenzie, pagaram R$ 10 [milhões], R$ 11 milhões para em seis meses fazerem o diagnóstico da aviação brasileira, como se desse para fazer isso em seis meses.

Então a solução seria privatizar a Infraero?


A privatização da Infraero é impossível de ser feita, porque grande parte dos aeroportos brasileiros é deficitária. Seria necessário um choque de gestão bastante forte na Infraero para mudar essa configuração. Não melhorar a Infraero é um absurdo. Você faz a concessão quando o seu papel de governo se esgotou. Acho um absurdo falar em conceder o Galeão à iniciativa privada porque não se sabe administrar.

O que poderia ser feito?


Tem que avaliar o pessoal. Por que estão gerindo mal? Por que está indo para esse caos? Acho difícil a Infraero não ter boas pessoas.

O governo viajou recentemente em busca de administradores de aeroportos europeus, visando parceiros que transfiram tecnologia para a Infraero, sem sucesso. Essa seria a melhor solução para o Galeão?


Eu acho um pouco demais isso, você achar que o sujeito vai formar a Infraero para ser competidor dele em outros aeroportos. É óbvio que ninguém ia querer.

Qual seria o melhor modelo?


Só contrato de gestão. Acho que com a Supervia (trens do Rio) é assim. A Supervia não faz investimento, quem compra os trens é o governo. Estou imaginando que as coisas estão se encaminhando para isso no Galeão.

A responsabilidade de fazer os investimentos continua com o governo, o que não deixa de acontecer também nas concessões que já foram vendidas. As empresas vão pegar dinheiro do BNDES e pagar esses compromissos todos (outorga, investimentos) e esperar a receita entrar para pagar o BNDES. Não é o dinheiro do governo de qualquer forma?

FRASES

“As decisões são tomadas de forma atribulada, não têm por trás um estudo de impacto, de resultados. Por exemplo, quando o governo, depois de fazer a outorga, diz que não pode fazer a mesma coisa no Galeão porque senão a Infraero vai ficar negativa”

“O melhor modelo seria ter uma boa gestão da Infraero. Naturalmente que o Galeão precisa de obras, porque boa parte dele foi feita há muitos anos. Mesmo que o governo conceda os dois aeroportos, se não melhorar a gestão da Infraero, será um desastre”

RAIO-X – ELTON FERNANDES

FORMAÇÃO

 
Graduação em arquitetura pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Mestre em engenharia de transportes pela Coppe/UFRJ.

Doutor em manufacturing and engineering systems pela Universidade de Brunel, Reino Unido

ESPECIALIDADE
Transporte aéreo

OCUPAÇÃO
Professor do Programa de Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ desde 1986

Fonte: Folha de São Paulo

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